domingo, 5 de abril de 2009

O ultimo .


Mudanças. Antes de Daniel aparecer, eu era pequena e transparente. A presença dele me fez visível, principalmente, aos meus olhos. Decidi que vou parar de escrever neste diário e vou usar meu tempo, procurando construir, encontrar, uma amizade que me contamine e me traga pro mundo, como Daniel fez. Eu quero dividir mais histórias, quero sorrir mais vezes.

O corredor continua vazio, as pessoas as mesmas, mas eu mudei. Uma vez ou outra sei que o coração vai doer e sei que vou sentir saudade... mas não foi por acaso que um garoto atípico, cabeludo, surgiu na minha porta. Isso tudo poderia ser fruto da minha imaginação, talvez, quem sabe . Tudo o que sei é que estou pronta pra viver minha vida agora.
O sinal tocou, preciso voltar pra sala.

Adeus, amigo.

- 6 dias depois, como ultimo relato, venho deixar frases de uma música da banda Paralamas do Sucesso, que recebi por carta, do meu primeiro grande amor/amigo :

'Sigo palavras e busco estrelas
O que é que o mundo fez pra você rir assim?
Pra não tocá-la, melhor nem vê-la
Como é que você pôde se perder de mim?
Faz tanto frio, faz tanto tempo
Que no meu mundo algo se perdeu ...'

Como pode ?

Acordei hoje, era umas 9 da manhã . Desci correndo as escadas perguntando aos berros o que havia acontecido . Minha mãe não me acordou achando que eu estava doente. Talvez tenha me ouvido chorar a noite toda.
Antes que eu voltasse pro quarto, ela disse que haviam deixado um bilhete pra mim.
Reconheci as letras tortas de longe. Voei em cima do papel e voltei pro quarto o mais rápido que pude.

'A hora do encontro é também despedida
A plataforma desta estação, é a vida...'

Daniel dizia estar preocupado e me pediu que não sofresse. Pediu desculpas algumas vezes por não se despedir pessoalmente, disse que não conseguiria.
Disse também que eu deveria me mostrar pro mundo.
E por fim, disse que eu havia me mudado com ele também.

E ali, da minha janela, vi a casa ao lado que agora era só outra casa. O quarto dele que era só outro quarto. Ele tinha partido .

O primeiro encontro do ralo .


Cheguei em casa, atropelando os móveis, me jogando na cama, confusa .
Mamãe até tentou me fazer almoçar mas a fome não vinha. Vovó tentou conversar mas nem as histórias dela me fizeram rir .
Mil pensamentos tomavam conta da minha cabeça, do meu corpo, naquele momento .
Eram duas horas, quando pela janela, vi Daniel sentado ao lado do ponto de encontro .
Enxuguei algumas lágrimas ... ele provavelmente queria conversar .
É difícil saber o que esperar ... uma despedida ? um bom motivo pro mundo levar ele pra longe de mim ? nada me parecia justo .
Desci as escadas, de uniforme ainda, e caminhei até ele em passos pequenos .
Ao sentar, escutei : ' - Esta atrasada 10 minutos !' e ele sorriu .
'- Como pode sorrir sendo que vai embora? Acha engraçado brincar com o que sinto ? Considera-se digno disso ? Pois então suma .'
Ele sorriu de novo e pondo suas mãos sobre meus ombros disse :
'- Se acalme, pequena. '
Precisei de alguns minutos pra me recompor . Ele continuou :
'- Terei que me mudar sim, de escola, de bairro ... mas não necessáriamente do seu coração.'
Sorriu de novo.
'- Como posso mante-lo em mim ? Sua ausência será só dor ...'
Ele não entende como a ausência de tudo e todos sempre foi presente na minha vida.
'- Eu vou vir te visitar algum dia, eu prometo! Sentaremos aqui e conversaremos como se eu não tivesse ido embora. Agora preciso ir, até amanhã .'

Eu voltei para o quarto, as cobertas, as incertezas.

o que quer que seja, me parece amor .


Ali estavamos, eu e ele, prontos ou não, mas a espera de revelações . Qualquer que fosse o segredo que ele iria me contar, o meu ele já sabia, eu gostava dele e isso era um fato .
Calmo, ele tirou o capuz da cabeça, me olhou nos olhos e disse:
'- Aqui estamos nós, a raposa e o príncipe, atrás de respostas .'
Meus olhos estavam vidrados nos deles. Respondi gaguejando:
'- Acho que você tem algo pra me contar ...'
Ele concordou com a cabeça . Tirou o pé do lugar e ali estava um ralo.
Eu soltei uma risada e perguntei ' - Você deve ser um espião, um policial desfarçado, ou parte de alguma sociedade secreta dos ralos .'
A cara de preocupado dele desapareceu e sorrindo ele aproximou seu rosto do meu :
' -um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido ...'
E sem me deixar responder, me calou num beijo breve .
Eu sinceramente não sei se fiz direito. Sei que ele sorriu . Talvez estivesse mesmo é rindo da minha cara de tonta afinal, aquele foi o meu primeiro beijo.
Ele continuou :'- O que tenho pra te contar é que terei que me mudar novamente ...'
Sem ouvir mais nada, num impulso incontrolavel, sai correndo pelo pátio pra que ele não visse as lagrimas surgindo em meus olhos. Voltei pra sala de aula.

Porque raios ele iria embora? Porque raios ele havia me beijado?
Nada parecia real. Coloquei a cabeça sob a carteira e permaneci assim até o término da aula.

expectativas.

Fui pra escola hoje como se fosse o primeiro dia de aula. Uma ansiedade sem tamanho.
Prova de Biologia na primeira aula.
Entrei com a cabeça baixa tentando desfarçar o nervoso .
Daniel me olhou de um jeito vazio . Jogou um papel na minha mesa e se virou .
Demorei pra criar coragem de ler. Pensei também em não ler pelo menos até terminar a prova.
Abri o papel e a letra não era irregular e sim, certinha .
' Dan, eu acho que a Nina gosta de você. Cuidado. Conte logo pra ela. Beijos, Ceci .'
Engasguei com os pensamentos que me vieram a mente .
Me contar o que ? O que será que ele esconde ? Porque Cecilia estava preocupada ?
Terminei a prova o mais rápido que pude . Daniel saiu um pouco antes que eu, então fui a sua procura pelo pátio . Depois de quase desistir, o encontrei sentado no chão, num canto .
'Nina, sente aqui .' ele disse, e depois disso, nada fez sentido e fez, ao mesmo tempo .

um jogo diferente .

' O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso. ' Friedrich Nietzsche

Tenho que ser breve no meu relato hoje pois estou até o pescoço de coisas pra estudar . Essa semana teremos provas e mais provas .
Aula de Educação Física na primeira aula, com sono e mau humor . Eu odeio segunda-feira .
Uma bola na mão dos meus colegas de classe significa que virei cesta, rede, alvo .
Sinceramente, não sou muito boa com os esportes . As meninas me olhavam e riam o tempo todo ... ' - Talvez eu fique feia com esse uniforme . Talvez eu seja feia mesmo ... desengonçada', gritei comigo mesma no banheiro . Uma das meninas ainda estava se trocando, me olhou meio assustada e saiu meio que depressa .
Na classe, fiz trabalho em dupla ( primeira vez que alguém me quis como dupla) com Daniel .
Na saida, um grupinho de meninas me esperava na porta da classe e no meio delas, reconheci Cecília, sem graça . Uma delas me puxou pelo braço : 'Você gosta do Daniel não é ? Esquisitinha ?' Eu corei as bochechas sem querer e corri para o carro .
Isso precisa parar .
Na parte da tarde não apareci ao primeiro 'encontro do ralo' . Talvez agora ele esteja se sentindo como me senti da primeira vez ... mas estou sem coragem de encara-lo depois de descobrir que estão ficando obvios meus sentimentos por ele .
Biologia agora, vou estudar .

O domingo, o trato e o ralo .


Estou eu aqui, entre um copo de coca-cola e minhas dúvidas . Já é a noite e eu não posso dormir sem registrar meu dia de hoje .
Com o cabelo armado mais do que o normal, acordei surpreendida com a noticia de que mamãe havia convidado os vizinhos para um almoço em casa . Tudo isso é muito novo pra mim que normalmente não tinha vontade de sair da cama antes das 15 horas no domingo . A vida era muito chata antes dele .
O almoço estava uma delícia, mas pouco consegui comer, constrangida com os silêncios entre eu e a irmã de Daniel, Cecília . Ela é bem mais nova que eu mas já aprendeu a malícia que se tem que ter na escola pra não estragar sua reputação . Qualquer contato dela comigo, arruinaria sua vida social .
Mas entre uma garfada e outra, Daniel me olhava com o canto dos olhos até que disse: 'Vamos conversar pra lá' .
Sentamos lá fora, com as pernas cruzadas, tentando evitar contato visual .
Ele contou sobre suas músicas preferidas, sua predileção por guitarras e filmes e eu como sempre, quieta, até que ele perguntou :' E você ? Quem é você ?'
Criei coragem : '- Eu sou tudo isso o que você não vê.'
Minha descrição causou uma expressão eu diria, intrigada nele .
Conversa pra lá e pra cá, descobrimos nosso grande hábito em comum: os detalhes .
Era quase duas da tarde quando ele apontou para o chão no qual estavamos sentados :
'- Veja, Nina : Isso é apenas um ralo ... Mas pra gente, pode ser mais . Assim como tudo na vida, as coisas só são o que a gente faz delas ... a importancia vem de dentro de nós mesmos . Este agora, é o nosso ralo e nos encontraremos aqui sempre, no mesmo horário . Você me acha estranho ?'
Eu, completamente atordoada com tal sensibilidade falei :
' - O principe e a Raposa ...'
Ele sorriu e levantando me disse :
'- Pois tu é responsavel agora por tudo isso . O ralo, e eu .'
E saiu andando em direção a casa dele .

O fim de semana .

Acordei hoje, sábado, um pouco mais tarde do que de costume .
Como todo final de semana, minha vó almoçaria em casa, e me contaria alguma história sobre a amiga da tia da prima da sobrinha da vizinha da amiga da amiga dela . Aquele jeitinho de dar detalhes a vida ... por trás dos meus óculos e minhas poucas sardas, eu me vejo muito parecida com ela .
Fiquei um bom tempo lendo durante a tarde, interrompendo a leitura pra observar a janela e cantarolar ...

'Depois de ter você
Poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas
Pra que amendoeiras pelas ruas?
Pra que servem as ruas?
Depois de ter você... ' de Marisa Monte .

E foi ai que me vi um pouco, eu digo completa e absolutamente, iludida com a presença de um quase estranho . Apaixonada .

explicações .


O que ocorreu depois da minha breve ausência na aula me fez acreditar em contos-de-fadas por alguns instantes ... vim registrar :

Voltei para a classe um pouco mais calma e decidida a esquecer aquilo tudo . Afinal eu só conhecia Daniel a dois dias e ele já me fazia perder a paciência .
Assisti as próximas aulas com atenção ignorando o fato de ser ignorada, por ele, por todos ... exceto a professora de literatura que me congratulava pela maior nota da sala . O que me fazia mais estranha ainda, pois todos aparentavam cara de decepção ao receberem as notas por seus trabalhos . Eu sinceramente nunca me julguei escrever bem . Eu sei bem é falar de mim, do que me acontece, do que eu vejo .
O sinal bateu para o intervalo e eu demorei na sala mais do que o normal pra não ter que encara-lo no corredor . Me levantei quando vi pequenos pedaços de papel picado no chão junto a um pouco de lixo . A curiosidade foi maior, tomei os pedaços pelas mãos e os escondi no bolso .
Corri para o banheiro e trancafiada no primeiro box vago, começei a juntar o quebra-cabeças de papel .
A letra era pequena, meio irregular . Quando todos os pedaços se juntaram, coloquei a mão na cabeça... o resultado era de extremo espanto .

' Eu não sou bom com palavras . Não sou bom com pedidos de desculpa e posso não ser bom com amizades . Mas, me desculpe por ontem.
Daniel . '

O bilhete era claro e simples, com poucos rabiscos e varias tentativas de como me abordar .
Sai correndo do banheiro com um ar meio perdido, já um pouco atrasada para a aula .
Entrando na sala, ele me olhou rapidamente e abriu o livro . Eu, passando por ele disse :
'tudo bem, está tudo bem .' Ele sorriu .

perguntas .

Mais um dia : acordei cedo, tomei meu banho e desci pro café-da-manhã quando a minha mãe entregou, em meio as torradas e meu leite, a bomba do dia : eu teria que ir pra escola com os vizinhos hoje . Senti um frio na espinha só de pensar em dividir o banco com alguém que havia me irritado tanto ontem . Essa expectativa seguida de decepção tinha acabado com meu humor na noite passada .
Ouvi a buzina vindo lá de fora ... Desci correndo deixando cair metade do que eu tentava guardar na bolsa no caminho . Parei antes de abrir a porta, encaixei o Ipod nos ouvidos e dei um ultimo suspiro .
Lá estava ele dentro do carro, com agasalho de gorro cubrindo o rosto, já que agora não tinha mais os cabelos pra se esconder . Cumprimentei todos com 'Bom Dia' e seguimos em silêncio até a escola .
O silencio se manteve até a sala, nas primeiras duas aulas, até que, esmagada com a pressão da situação, pedi ao professor pra ir ao banheiro, lavar o rosto ... aleguei estar passando mal .
Quem esse novato pensa que é pra chegar na minha vida e sair assim ? Fingir que eu não existo como os outros ? Que previsível ... fechei o diário e fui respirar ar fresco .
... E ele não apareceu na janela . Não apareceu .
Isso me lembra o livro 'O Pequeno Principe' e aquela antiga história sobre o menino e a raposa, onde resumidamente a raposa ensina o menino a importancia e a responsabilidade de cativar e ser cativado .

' A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor ...cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo,cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei para o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eucomeçarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! 'Antoine de Saint- Exupèry .

Abri os olhos com vontade quando o despertador tocou . 5:30 da manhã, marcava o relógio e eu fui tomar banho . O caminho até a escola foi tranquilo . Ao entrar na sala, meu estômago alertou estado de emergência . Mas eu não estava passando mal . Agora com os cabelos curtos, ele parecia mais interessante do que antes . O cumprimentei com um sorriso timido e me sentei . A aula toda se resumiu a olhar seu cabelo e sua nuca . O sinal bateu .Saindo da sala, fui surpreendida com um '-Eii você, vizinha !' Meu coração, não sei se morto ou se rápido demais pra que eu o percebesse bater, reconheceu a voz de Daniel . Por todo o recreio, em silencio, ouvi atentamente aquele menino contar sobre sua mudança e sua vida antiga . Cada pedaço dele me dava vontade de sorrir ... eu finalmente tenho com quem conversar . Por favor, diário, não sinta ciumes .Combinamos, eu e ele, de nos encontrar mais tarde para fazer a lição de História . Ele me disse que chamaria pela janela, e aqui estou eu .
Esperando .

será uma luz ? talvez uma inspiração ...


Esse pode ser o capítulo mais interessante do ano pois afinal, não sei se existirá emoção maior depois de ontem . Era a tarde e eu estava estudando para a prova de hoje quando escutei um barulho lá fora . Os vizinhos novos chegaram num carro preto, discreto . Pulei de volta para a cadeira e como 1 + 1 formam 2, a campainha tocou . Um casal normal, com uma filha normal e um alguem escondido atras de cabelo, boné e Ipod, se encontravam na minha porta, se apresentando . Como pode ver, descrevi o garoto demais . Voltei para o meu quarto depois de cumprimenta-los com um aceno .

Hoje ao chegar á escola, lá estava ele, sentado na carteira a minha frente . Consegui enxergar seus olhos e eram cor de mel . As olheiras mostravam como tinha dormido mal . Seu nome é Daniel e isso é tudo o que eu sei dele .

Na verdade não sei porque isso me animou tanto . Talvez ele seja o único a me reconhecer no meio de tanta gente . Na saida, desci correndo as escadas pra ver se o via ir embora, talvez arriscar um ADEUS, mas nem sinal dele .

De resto, fui bem na prova, eu acho . Agora preciso dormir .

dança da solidão .


'É sobretudo na solidão que se sente a vantagem de viver com alguém que saiba pensar.'
Jean Jacques Rousseau .

Não, eu não gosto de ser sozinha . Talvez eu seja sem graça demais por dentro . Talvez .
Hoje foi mais um dia invisível na escola, sem grandes emoções .
As mesmas aulas e aquela matemática que consome toda a minha preocupação agora :
Amanhã eu tenho prova e terei que me dedicar um pouco mais do que o normal .
Fora isso, pensei muito essa manhã sobre amizade . É terrivel não poder dividir ... mas parece que ninguém aceita um pedaço de mim .
Eu vejo as pessoas se abraçando e trocando promessas ...
Sobretudo fica minha resistência sobre depender de alguém . Eu acho que sinto medo de me abrir assim pras pessoas, dar a cara a tapa sabe ?
Mas eu quero aprender . Talvez um dia ... Talvez .


Ouvindo : dança da solidão - marisa monte .

Primeira impressão .

O óbvio foge aos olhos . Me pergunto se notam minha ausência de alma em dias como esse, apenas outra terça feira onde fica difícil prender os olhos nos números, nas tantas explicações sobre os homens e a vida . No fundo, eu respeitosamente duvido que meus próprios professores entendam plenamente seus significados, seus mistérios .
O conhecimento basta para a razão mas não para mim .
Eu quero sentir .
Esse momento é meu agora... de lamentar que poucos me enxerguem como eu realmente sou . Não que eu me sinta invisível . Desaparecer agora até seria conveniente .
São as pessoas que estão vazias de mim .
O sinal toca e um a um, deixamos o coletivo na sala e partimos pros nossos mundos dentro da gente .
Eu quero falar sobre tudo que deixamos de enxergar, preocupados demais com nós mesmos .
Assim, um passo fora da sala, assisto um colega que joga um pedaço de papel no chão, dá dois passos, passa por um lixo, e segue seu caminho .
Alguns minutos depois, Dona Maria aparece, recolhe este e mais alguns papéis do chão e os joga no lugar que deveriam estar .
O lado da conveniência ? ‘ Se eu não sujasse, ela não teria emprego‘ . O lado da verdade ? Dona Maria tem 46 anos, é divorciada, tem 3 filhos, mora em uma casa simples, pega 3 onibus para chegar na escola todos os dias pois assim garante o almoço e o estudo pra sua família .
E quem quer saber da dona Maria ? Muitos não sabem nem seu nome ! Passamos por ela umas 10 vezes sem ao menos cumprimentá-la . Ela está no nosso dia-a-dia, faz parte da rotina, do nosso meio de viver e precisa manter o espaço limpo pra receber seu salário dignamente . E quem se importa ?
O fato é que é muito mais facil ignorarmos ... do aquecimento global até pessoas como dona Maria, porque assim não precisamos justificar nossa dívida com o mundo .
O sinal bate outra vez e o pátio é coberto por lixo .
Todos voltam para sala pra recomeçar a aula e eu me pergunto, estamos mesmo aprendendo a viver ?